Nos últimos dias, o termo “nova lei dos influenciadores” viralizou no meio digital. A grande maioria dos profissionais que lida com conteúdo nas redes sociais — sejam microinfluenciadores, criadores de conteúdo, donos de negócios que usam o próprio perfil como vitrine, ou até agências — começou a perguntar: afinal, o que está mudando?
Essa dúvida é natural, porque o cenário legal do marketing de influência evoluiu rapidamente, e a forma como essa atividade é tratada hoje pelo Estado brasileiro e pelos órgãos de autorregulação vai impactar o trabalho de milhares de pessoas no digital.
Neste artigo, vamos explicar quais são as principais mudanças, por que elas estão sendo feitas, e sobretudo o que você precisa saber para continuar trabalhando com segurança e profissionalismo.
O que é essa “nova lei”?
Em janeiro de 2026, foi sancionada a Lei nº 15.325/2026, que cria um marco legal para o exercício da profissão de multimídia, incluindo criadores de conteúdo digital e influenciadores.
Tradicionalmente, influenciadores atuavam em uma espécie de “zona cinzenta” jurídica: não havia uma lei específica para a profissão, e muitas vezes a atividade era considerada como hobby ou como trabalho autônomo simples. Essa nova lei altera isso ao reconhecer, formalmente, a atuação como atividade profissional — e com isso surgem exigências legais e obrigações que antes não eram claras.
O que muda com essa lei?
1. Reconhecimento da atividade como profissional
A primeira e mais importante mudança é que a criação de conteúdo digital passa a ser tratada oficialmente como atividade profissional de multimídia — ou seja, muito além de hobby ou informalidade. Isso tem impactos diretos sobre a forma como influenciadores devem se organizar, se registrar e prestar contas de seu trabalho.
Isso quer dizer que:
- O influenciador pode precisar formalizar sua atividade (como MEI ou empresa formal) dependendo do volume de trabalho e da forma como cobra por serviços.
- Atividades que antes eram tratadas como “parcerias eventuais” podem agora ser consideradas como renda tributável normal, sujeita a impostos e contribuições.
2. Mais responsabilidade e obrigações legais
A nova lei traz regras que exigem mais responsabilidade profissional para quem cria e publica conteúdo. Isso significa:
✔️ Maior responsabilização judicial e tributária pelo conteúdo produzido.
✔️ Exigência de organizar contratos com marcas e anunciantes de forma mais clara.
✔️ Possível necessidade de manter documentação que comprove parcerias e pagamentos.
Em outras palavras, a atividade se torna mais parecida com a de um profissional liberal ou empresário do que com um “amador que posta nas redes sociais”.
3. Regras de publicidade e transparência
Embora a nova lei em si trate principalmente da figura profissional do influenciador, outras regras legais já existentes continuam valendo — e ganharam ainda mais atenção nesse contexto:
Regras de divulgação de publicidade (como as orientações do CONAR) exigem que todo conteúdo patrocinado seja claro para o público, com indicações explícitas quando houver publicidade ou patrocínio. Isso evita que seguidores sejam enganados ou confundidos sobre o caráter comercial de um post.
A legislação brasileira de defesa do consumidor (Código de Defesa do Consumidor) também se aplica — influenciadores podem ser responsabilizados por propaganda enganosa ou por informações falsas divulgadas em seus canais.
4. Projetos que ainda podem complicar o cenário futuro
Paralelamente à lei aprovada, está em tramitação no Congresso o PL 5990/2025, que propõe regras ainda mais restritivas, como a proibição de influenciadores divulgarem conteúdo sobre temas que exigem conhecimento técnico, a menos que comprovem qualificação.
Esse projeto ainda não é lei, mas indica que o ambiente regulatório pode ficar ainda mais restritivo — sobretudo para conteúdo que envolve saúde, finanças, educação, e outros temas sensíveis.
Por que essas mudanças acontecem agora?
O principal motivo é que a influência digital hoje tem impacto econômico e social real. As marcas investem bilhões em campanhas com influenciadores e grande parte do consumo de informação e publicidade migrou para ambientes como Instagram, TikTok e YouTube.
Essa realidade tornou o trabalho de influenciador algo que gera receita, empregos, arrecada impostos e precisa de estrutura legal para proteger todas as partes envolvidas — marcas, consumidores e os próprios criadores.
Benefícios da nova lei para influenciadores
Apesar de parecer assustadora à primeira vista, essa lei também pode trazer vantagens reais:
Maior reconhecimento profissional
Ter sua atividade reconhecida legalmente fortalece sua posição em negociações com marcas, agências e plataformas.
Mais segurança jurídica
Com regras claras, tanto influenciadores quanto anunciantes têm menos chance de cair em litígios ou multas por descumprir normas ambíguas.
Organização do setor
O mercado passa a ganhar estrutura profissional, facilitando a criação de projetos mais robustos e contratos sólidos.
Riscos e obrigações que você precisa conhecer
Mesmo com seus benefícios, a nova lei envolve algumas responsabilidades que não podem ser ignoradas:
Obrigação de formalização — dependendo da forma como você trabalha, pode ser necessário abrir um CNPJ, fazer emissão de notas fiscais, declarar renda corretamente e pagar impostos como ISS, INSS e outros tributos pertinentes.
Responsabilidade por conteúdo — além das regras de publicidade claras, quem faz posts sobre temas como saúde, finanças, educação ou direito pode ter de comprovar seu conhecimento e responsabilidade profissional (especialmente se o PL 5990/2025 avançar).
Risco de punições — propostas em discussão no Legislativo incluem advertências, multas e até suspensão de contas em caso de descumprimento de normas sobre divulgação e responsabilidade técnica.
Como se preparar e se adaptar
Se você é influenciador — mesmo em início de trajetória — essas são ações práticas que ajudam a se adequar ao novo cenário:
1. Formalize sua atividade
Considere abrir MEI ou outra forma de empresa para emitir nota fiscal, pagar impostos e organizar sua renda com clareza.
2. Use contratos claros
Todo trabalho com marcas deve ser formalizado com contrato detalhado: serviços, prazos, entregáveis, valores, direitos de imagem, uso de conteúdo, etc.
3. Siga as regras de publicidade
Use hashtags e indicações claras em todas as publicações patrocinadas (#publi, #ad, #parceria), seguindo o código de autorregulação publicitária.
4. Tenha cuidado com temas técnicos
Evite dar conselhos ou criar conteúdo em áreas que exijam qualificação, a menos que você tenha formação ou certificação apropriada.
5. Busque orientação profissional
Um contador ou advogado especializado em marketing digital pode ser um grande aliado para evitar erros e multas.
Conclusão
A nova lei não é um golpe contra influenciadores — ela é uma tentativa de organizar e reconhecer uma atividade que já impacta milhões de pessoas e movimenta grandes receitas no Brasil.
A mudança exige mais responsabilidade, profissionalismo e organização, mas também oferece maior segurança jurídica e reconhecimento para quem leva o trabalho digital a sério.
Para influenciadores que usam esse canal como carreira, negócio ou emprego, a chave será adaptar-se cedo — formalizar, se educar sobre normas de publicidade, documentar parcerias e operar com transparência.
No fim, isso pode significar um mercado mais maduro, justo e sustentável para todos.
